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Design Computacional - como algoritmos transformam o projeto
Mais do que novos softwares ou ferramentas tecnológicas, o Design Computacional é uma nova abordagem metodológica que poderá revolucionar o modo como se projeta.

Parametricismo, algorítimos, Big-Cloud, internet-das-coisas, design generativo: apenas alguns dos nomes que tem surgido ao redor de arquitetos, urbanistas e designers que, nos últimos anos, tem observado uma relação crescente entre tecnologia e design.

Isto, pois o mundo digital tem se sobreposto cada vez mais ao universo físico: aplicativos de smartphone, redes sociais, nuvens de dados e arquivos digitais - como filmes, fotos, documentos e fotografias - simplificam os meios de comunicação, alteram logísticas de distribuição e permitem um acesso mais democrático à informação.

Ainda que a construção civil seja a indústria que menos tenha acompanhado os processos de digitalização e inovação tecnológica, é nitidamente observável que mais cedo ou mais tarde esta também sera uma das indústrias que será chacoalhada pela tecnologia. Drones, impressão 3D, nuvens de pontos, inteligência artificial e óculos de realidade virtual são apenas alguns dos instrumentos que prometem inovar os tradicionais métodos de trabalho.

Da mesa de projeto ao canteiro de obra, o mais certo é que, nas próximas décadas, veremos uma completa revolução que substituirá: a alvenaria e o concreto pelo pré-fabricado digital; os desenhos em 2D por arquivos de impressão e imersões em 3D; processos repetitivos e laboriosos pela inteligência artificial; o que for insustentável pelo que haver cuidado com o meio ambiente.

É no meio de tantas transformações sociais e técnicas que o Design Computacional surge como uma disciplina que busca pensar a metodologia de projeto através da inserção destas novas ferramentais digitais, destacando-se a programação e a inteligência artificial.

Dentre as vantagens desta nova metodologia estão:

  1. Escala - Visto que um único processo pode gerar múltiplas soluções de grande escala num tempo bastante reduzido (e considerando uma extensa quantidade de fatores).
  2. Eficiência - Buscando formas que necessitem de menos material ou possam ser produzidas de modo mais ágil, por exemplo.
  3. Complexidade - Através da consideração de aspectos de difícil uso no processo de design tradicional - como a materialidade e suas particularidades (elasticidade, acústica, deformações) e cálculos precisos, como ventilação e incidência solar, atualizados por dados climatológicos locais.
  4. Organização - Tornam-se possíveis sistemais que se auto regulam ou dimensionam-se de acordo com as necessidades identificadas. Exemplo: Semáforos inteligentes que se comunicam para melhor distribuir o fluxo viário.
  5. Técnica - Projetando formas que suportam maiores cargas ou permitem diferentes curvaturas.
  6. Social - Com processos que quantificam, classificam e consideram o comportamento humano em determinados espaços.

Mas o que de fato é o Design Computacional?

Primeiro precisamos definir o que entendemos por “Design” ou “Projeto”. A página da Wikipédia fornece a seguinte explicação:

“O design, desenho industrial ou projetismo é a idealização, criação, desenvolvimento, configuração, concepção, elaboração e especificação de produtos, normalmente produzidos industrialmente ou por meio de sistema de produção em série que demanda padronização dos componentes e desenho normalizado. Essa é uma atividade estratégica, técnica e criativa, normalmente orientada por uma intenção ou objetivo, ou para a solução de um problema.”

Numa visão ainda mais ampliada podemos compreender o design em duas etapas distintas: mental e física. Na primeira categoria, temos o trabalho cerebral, que geralmente aborda as primeiras fases de um projeto, onde compreendemos os requisitos, juntamos as ideias, questionamos as prerrogativas e a partir daí construímos os princípios daquilo que chamamos de "design". [1]

Este trabalho intelectual, porém, nunca termina em seu aspecto puramente efêmero ou mental — visto que, o designer também está incumbido de testar tais ideias e posteriormente comunicá-las às outras pessoas envolvidas no processo. Para tal é, também, fundamental a realização do empreendimento físico do design, onde entram os cálculos, documentos, desenhos, modelos, etc.

No entanto, raramente o produto desta etapa física resulta numa solução perfeita. Para melhor lapidar o que quer que se esteja projetando, é frequentemente fundamental retornar ao plano das ideias e revisar aquilo que necessitar de ajustes ou refazer por completo o que não estiver funcionando. Não obstante, os melhores projetos são usualmente aqueles que envolvem uma iteração constante entre estas duas etapas - física e mental - e são formulados e reformulados inúmeras vezes.

Recentemente, com a chegada do computador, muitos destes processos físicos passaram a ser também virtuais. Desenhos técnicos que anteriormente eram realizados à mão foram sendo migrados para o computador. Softwares como o AutoCAD e o Rhinoceros definiram-se como ferramentas essenciais graças a facilidade, precisão e rapidez que estes possuem em comparação ao desenho técnico que era realizada a mão.

Todavia, a incorporação destes softwares, embora pertinente para a introdução dos computares no processo de design, traz um problema em seu âmago: serem apenas uma releitura dos antigos desenhos técnicos feitos a mão, agora convertidos para o meio digital. Suas tecnologias permitiram acelerar o ritmo de produção, mas não apresentam nenhuma mudança expressiva no sentido mental e intelectual do design.

“A primeira geração de softwares CAD buscou replicar de modo fidedigno os paradigmas de trabalho existentes até anteriormente - eles trocaram a lapiseira pelo mouse e o apagador pela tecla delete, mas, de qualquer modo, a experiência foi mantida. Para desenhar uma linha, você pressiona e move a mão de um ponto ao outro. Isso foi deliberado e, até certo ponto, necessário durante a primeira transição para o mundo virtual, mas, ao tratar um computador apenas como um substituto para uma folha de papel, o verdadeiro poder da computação é ignorado. [1]


Um adendo para o meio arquitetônico é que cálculos, tabelamentos e outros processos fundamentais ao projeto de um edifício foram integrados pelas plataformas BIM. A tecnologia BIM representa um avanço pois assimila o desenho técnico como algo que vai além de linhas e superfícies e incorpora a informação como parte elementar do modelo digital.

Logo, os elementos de projeto são interpretados em conjunto com os dados não-visuais. Mais do que perfumaria, o BIM reverbera através de projetos que contém menos erros, facilitam a colaboração interdisciplinar, permitem obras que desperdiçam menos materiais e corrobora para que construções sejam levantadas e documentadas em menor espaço de tempo e com maior confiabilidade técnica e orçamentária.

Não obstante, computadores não são como martelos ou canetas mais ágeis. São objetos dotados de compreensão e lógica. Tal lógica pode realizar linhas e pontos quando assim direcionada através de softwares CAD. No entanto, é fundamental a compreensão de que as possibilidades da máquina podem ir além, vindo a contribuir, também, nas etapas de pesquisa e conceitualização do design. Em outras palavras,  não são apenas os aspectos físicos do processo de design que podem se beneficiar pela incorporação do computador, mas também os mentais.

Isto, pois projetar nada mais é do que um processo lógico. Principalmente na arquitetura, as coisas possuem justificativa para serem como são. Assim, colunas são posicionadas em eixos estruturais fundamentais, janelas são ajustadas em pontos estratégicos para incidência solar e corredores de circulação interligam locais por onde o acesso é indispensável. Consequentemente, sistemas são criados em nossa mente, padrões surgem e grids são estabelecidos para tecer ordem entre os elementos.

Até então coube a nós humanos compreender estes sistemas e estabelecer tais relações entre elementos, definindo onde cada um se posicionará ou quais propriedades terá. Todavia, graças ao poder de processamento do computador, muitos destes processos podem ser automatizados. Isto significa que, mais do que agilizar as etapas físicas de produção do design, graças ao potencial de processamento do computador, torna-se possível também a utilização da maquina como ferramenta de exploração e aprimoramento do projeto.

Enquanto a mente humana é incapaz de se concentrar sob inúmeros fatores simultaneamente, podendo inclusive cometer falhas por esquecimento ou imprecisão, o computador quando corretamente configurado gerará rápidos cálculos que tomam como base, simultaneamente, todas as restrições de projeto, grids e padrões de modo preciso e ágil.

Para que o computador tome as decisões corretas, no entanto, é fundamental descrever de modo lógico quais são as restrições, limitações, grids, sistemas, processos ou padrões e sua ordem hierárquica sob cada comando. Algo feito através dos algoritmos: conjuntos de regras que operam dados numa sequência de etapas pré-determinadas.

Construir nossos próprios algoritmos, portanto, permite incluir o computador no processo de design não só como um agente passivo, mas também como um agente ativo que informa e contribui na tomada de decisões. Esta incorporação do computador como um agente ativo, consequentemente, é o que separa os métodos de design tradicionais do design computacional. Em resumo o Design Computacional é uma mudança no meio da expressão do design, da geometria para a lógica.

O que torna o Design Computacional relevante?

1) Produção em níveis de complexidade e escala nunca visto antes

Cidades terão o desafio de ampliar e desenvolver-se como nunca para acompanhar o crescimento populacional. Estamos no meio de um pico que nos leva de 1,6 bilhões de habitantes no planeta, em 1900, para 10 bilhões, em 2053 - aonde 85% destes viverão em centros urbanos. [2]

Consequentemente, muitas cidades precisarão dobrar em extensão e adensamento do dia para a noite. Para que isto seja realizado sem deixar para trás a qualidade do que se constrói - e evitar que a atual crise habitacional se intensifique - será fundamental o desenvolvimento de novos modos de gerar projetos numa escala nunca vista antes.

Automatizar processos técnicos, aliar-se aos novos mecanismos de produção da indústria digital e consequentemente desenvolver meios de projetar de modo contextualizado será, portanto, imprescindível para que se evite o colapso urbano.

Nesta direção, enquanto grandes transformações permitidas pela fabricação digital poderão causar mudanças tectônicas nos meios de produção - através de impressões 3D, diversificação de materiais e maior acessibilidade  - o design computacional será igualmente influente no modo como alterará as metodologias de projeto.

A inteligência artificial, particularmente, promete ser um dos principais vetores de transformação, revolucionando sociedades e colocando em cheque diversas industrias - incluindo a construção civil. Para a arquitetura e o design, a inteligência artificial poderá ser igualmente disruptiva no sentido físico e mental do projeto.

Alguns exemplos de como a inteligência artificial e a programação, em geral, poderão contribuir para o desenvolvimento de cidades e a aceleração do processo produtivo arquitetônico já podem ser observados em casos como:

  • Finch 3D: um algoritmo que produz plantas de modo automatizado com base num dado espaço fornecido. Embora uma ideia ainda em eclosão e carente de mais desenvolvimento, o que tal processo demonstra é como métodos de automatizar o modelo arquitetônico poderá se dar num futuro próximo. [3]
Finch3D
[IMG-07] - Finch3D

  • ArchiGAN: Uma Inteligência artificial que mimetiza plantas através de um processo de machine learning e uma extensa database. Também em estágio inicial, este é um processo que demanda aprimoramentos - como a conversão dos resultados rasterizados para vetorizados. No entanto, é notório o potencial disruptivo de ferramentas como tal no potencial de produção em escala.[4]
Interface do ArchiGAN
[IMG-09] - Interface do ArchiGAN

  • Autodesk MaRS Office: Num exemplo mais pragmático do potencial uso destas ferramentas, há o recente caso do escritório projetado pela Autodesk em Toronto. Aqui, objetivos de projeto foram tomados como ponto de partida para a implementação de um fluxo generativo computacional que considera o bem-estar de cada um dos mais de 250 funcionários que lá trabalham. [5][6]
Projeto da Autodesk em Toronto utiliza design generativo para definir a disposição de espaços e layout.
[IMG-10] - Projeto da Autodesk em Toronto utiliza design generativo para definir a disposição de espaços e layout.

Primeiro foram tomadas as variáveis mais óbvias, como as dimensões da placa de piso e o grid de colunas. Em seguida foram sendo implementados também processos mais complexos e que demandam maior ordenamento, como a quantidade e a metragem quadrada de salas e espaços fechados. No fim, tais variáveis foram determinadas a cumprir com metas como o acesso à luz do dia e ás vistas externas para, assim, atingir níveis adequados de distração e interconectividade da equipe, ou “buzz” como foi chamado.

Logo, não é uma grande surpresa que a gigante desenvolvedora de softwares projetuais tenha se interessado por explorar tais processos de design generativo para produzir seu próprio espaço de trabalho. O objetivo final, diz o diretor de estratégia de produtos da empresa para o projeto generativo da AEC, Anthony Hauck, é disponibilizar esses processos em larga escala em seus produtos. “Acreditamos que podem haver boas soluções de design que nunca são encontradas porque são laboriosas para descobrir e a mão-de-obra é um recurso limitado. É para isso que serve a automação. Podemos tirar o suficiente do trabalho dessa exploração para torná-lo fácil e divertido, para melhorar simultaneamente a vida profissional das pessoas e sua confiança", diz ele.


A partir destes exemplos é possível depreender que, uma vez colocados na direção correta, inteligência artificial e algoritmos tornam-se ferramentas poderosas capazes de revelar soluções e impulsionar a criação de milhares de projetos com características particulares.

Mais do que uma questão quantitativa, isto também facilita a implementação de dados científicos no projeto, vindo a potencialmente agir, inclusive, sobre as mais diversas demandas de aspecto técnico e de bem-estar dos usuários. Assim, é questão de tempo até que processos semelhantes sejam capazes de se adaptar, também, a parâmetros relativos a normas técnicas e regras da legislação local, além de condicionantes situacionais como relevo e clima.

Outro ponto positivo é que de forma inclusiva, a inteligência artificial pode corroborar para que pessoas que talvez nunca contratassem um arquiteto, por questões financeiras ou mesmo de percepção da importância do ofício, obtenham acesso a projetos com um arranjo arquitetônico mínimo, mesmo que este seja proveniente de processos algorítmicos.

No entanto, isto não significa de nenhuma maneira que computadores estão próximos de substituírem por completo a presença de humanos na tomada de decisão sobre o design. O que é evidente, porém, é que este se tornará cada vez mais essencial no processo de design, vindo a modificar radicalmente o modo como se projeta.

Para uma parcela de cientistas de dados, isto se reflete no que se tem chamado de “augmented inteligence” - ou “inteligencia aumentada” em tradução direta. Nesse paradigma, as inteligências artificiais se tornam ferramentas que aprimoram a inteligência humana, ao invés de substituí-la.

Ferramenta em desenvolvimento pela empresa Blue Foam: humanos projetam valendo-se de intuição e experiência real, enquanto a inteligência artificial atua no que faz de melhor, o processamento de dados.
[IMG-11] - Ferramenta em desenvolvimento pela empresa Blue Foam: humanos projetam valendo-se de intuição e experiência real, enquanto a inteligência artificial atua no que faz de melhor, o processamento de dados.

Uma demonstração direta desta afirmação vem de uma ferramenta que vem sendo desenvolvida pela empresa Blue Foam. Nesta, o designer esboça e o computador interpreta o desenho, compreendendo cada traço como um input que restringe e permite um novo cálculo de dados. Consequentemente, resultados são gerados para a interpretação do designer que pode editar ou repetir o processo até alcançar soluções únicas que nem a máquina, nem o humano, poderiam atingir separadamente. [7]

Portanto, será essencial a arquitetos e designers estarem atentos as transformações tecnológicas, contribuir no debate de construção destas ferramentas e incorporá-las para que se enfrente as dificuldades dos próximos anos no que tange uma produção em aceleração e permeada de conflitos.


2) Crise Climática

Em dissonância com o adensamento do ambiente urbano, há outra grande preocupação tão relevante quanto: o aquecimento global. Não fosse suficiente a dificuldade de duplicar cidades inteiras, isto terá que ser realizado enquanto se reinventa a cadeia produtiva de toda a construção civil.  À vista disso, será imprescindível conduzir toda a indústria na direção de soluções que regenere os ambientes degradados e reverta o impacto que vem sendo causado ao meio ambiente e a saúde da população.

Segundo a ONU, é vital que haja um corte de pelo menos 50% nas emissões de gás carbônico até 2030 para que se evite uma catástrofe climática [8]. Uma vez constatado que a construção civil e os principais materiais empregados na formação das cidades contemporâneas, como o concreto e o alumínio, são responsáveis por uma parcela volumosa das pegadas de carbono emitidas anualmente, é primordial que seus agentes empenhem-se na busca por soluções que desembarquem em um futuro menos calamitoso.

Deste modo, a arquitetura que é uma disciplina já dotada pela dificuldade de ser um objeto do agora para o futuro  - num ato quase profético - precisará  lidar também com as incertezas de um solo ainda mais instável. Consequentemente, arquitetos e urbanistas estarão incumbidos de buscar, nas mais diversas ciências, soluções que perpassem o design e viabilizem meios de compreender,  anteceder e desatar as complicações globais e regionais que se apresentarão.

É através desta percepção que o design computacional se amalgama com o que vem sendo chamado também de design regenerativo. Este novo conceito rivaliza com a ideia de “sustentabilidade” e advoga por abordagens que, ao invés de apenas mitigar os danos causados ao meio ambiente, digilencie por soluções que harmonizem a convivência entre o meio urbano e a natureza.

Para tal é necessário não perder de vista a arquitetura como algo que vai para muito além do processo construtivo. Um exemplo de sintoma ocasionado pela falta desta visão vem de como uma grande quantidade de energia é dedicada diariamente para regular artificialmente o conforto térmico de diversos espaços internos. Um problema que, caso não seja melhor observado, poderá fugir do controle.

Países do sudeste asiático vivem um crescimento explosivo na demanda energética residencial, e o problema deverá se agravar à medida que mais e mais pessoas tendem ao ar-condicionado para lidar com o aumento da temperatura e o agravamento da poluição.
[IMG-12] - Países do sudeste asiático vivem um crescimento explosivo na demanda energética residencial, e o problema deverá se agravar à medida que mais e mais pessoas tendem ao ar-condicionado para lidar com o aumento da temperatura e o agravamento da poluição.

Em uma pesquisa que considerou diversas localidades, ficou demonstrado que, dado o atual cenário de mudanças climáticas, um crescimento na demanda de energia para a refrigeração de espaços residenciais e comerciais poderá dar um salto de 250% e 750%, respectivamente [8]. Quando estes dados são correlacionados a outros estudos que apontam para um acréscimo no número de dias e noites quentes, verifica-se o surgimento de um efeito de feedback perigoso.

Tais sintomas, fruto de um desequilibrio com o meio natural, torna evidente a urgência de se desenvolver modos de aperfeiçoar o conforto térmico de edifícios que não desconsiderem a gravidade das questões climáticas. Isto é algo que perpassa por um design arquitetônico que se vale de dados métricos climatológicos passados e previsões futuras de cada região para, assim, traçar estratégias eficientes de controle dos excessos.

Em conjunto ao comforto térmico de espaços internos há também inumeras outras questões relacionadas a arquitetura e o ambiente urbano que não podem ser deixadas de lado, como: microclima, permeabilidade do solo, poluição atmosférica e sonora, entre tantos mais.

Para enfrentar todas estas questões é necessário uma união multidisciplinar capaz de mergulhar profundamente nas ciências humanas e da natureza. Deste modo, viabilizado pelo design computacional, novas metodologias e ferramentas poderão contribuir para reverter o quadro atual de mazelas ambientais.

Exemplos sobre como isto pode ser realizado já existem espalhado por diversas partes do globo, embora as metodologias empregadas ainda necessitem tornar-se mais acessíveis e adequadas aos diferentes biomas, climas, solos, culturas e materiais disponíveis a cada região.

Em Amsterdã, o escritório GG-Loop estudou a incidência solar anual local para definir a forma do edifício e parametrizar as venezianas da fachada [IMG-13]. Suas laminas de madeira foram então posicionadas de modo a permitir que o ideal de luz natural adentre os apartamentos sem prejudicar a privacidade dos habitantes.[10]

Em Melbourne, na Austrália, a moradia estudantil da universidade de Monash recebeu o cuidado de um algorítimo evolucionário que identificou soluções particulares para cada uma de suas 8 distintas fachadas, com cada uma posicionada para direções diferentes. [11]

Havendo ainda que atender a dois objetivos conflitantes - evitar o superaquecimento interno enquanto possibilita a entrada de luz natural suficiente durante o dia - foi essencial a utilização de um processo que investigasse multiplas possibilidades de brises e seus posicionamentos a fim de encontrar aquele com a melhor performance para tal finalidade [IMG-14].

Além destes casos, há diversos outros que demonstram a possibilidade de utilizar metodologias de design computacional para desenvolver soluções para drenagem e captação da água da chuva [IMG-16], ventilação cruzada em espaços internos [IMG-15 e 18], fluxo de ventos em ambientes urbanos, classificação de microclimas, entre outros.


3) Materialidade, Eficiência e Complexidade

[IMG-19] - ICD/ITKE Research Pavilion 2011

A arquitetura, como prática e execução, se apresenta hoje através de principios de design que dificultam abordar os materiais em uma visão mais ampla, capaz de compreender toda sua potencialidade e complexidade.

Principalmente pelo modo como a geometria é desenvolvida nos projetos, quase sempre esquemática de corpo e sem consideração aos aspectos intrinsecos de cada material, a materialidade é geralmente aplicada de forma passiva à formas pré-estabelecidas e generalistas.[13]

Consequentemente isto é algo que impede que informações elementares relativas de cada material - como elasticidade, resistência, resiliência e transmissibilidade - sejam empregadas nos estágios inicias de concepção da forma e de geração do projeto. [12]

Esta percepção dos aspectos materiais, apenas como restrições a serem acomodadas, é algo que está intrinsecamente relacionado às ferramentas CAD, utilizadas no processo de modelagem e desenho atualmente. Uma vez que estas ferramentas direcionam o desenvolvimento de formas e geometrias sem qualquer relação com o emprego dos materiais, resulta-se em processos aonde a materialidade é geralmente entendida apenas como uma substância a ser aplicada nas etapas posteriores do projeto.

Porém, os aspectos intrinsecos de cada material podem ir além da mera receptividade da forma e, quando estudados e incorporados desde as primeiras etapas conceituais de projeto, são capazes de ativar morfologias e propriedades excepcionais.

Para tal é fundamental que a consideração pela materialidade seja empregada como parte do processo exploratório do design, e o computador deste modo pode contruibuir imensamente através de cálculos e simulações. Isto é algo que permite ao design questionar e avaliar criticamente os preconceitos e idealismos dos períodos industriais passados em prol de novas metodologias e soluções.

Em paralelo, isto é algo que caminha de mãos dadas com as revoluções no campo da fabricação digital. Tanto a manufatura subtrativa - como máquinas de corte CNC - quanto de manufatura aditiva - como as impressões 3D - já permitem explorações da forma e das capacidades materiais de modo bastante distinto das produções tradicionais como a alvenaria e o concreto armado.

Quando vinculadas às estratégias do design computacional biomimético, tais tecnologias fornecem solo para a germinação de ideias capazes de enfrentar os desafios que a construção civil terá em face do gasto de energia, dos recursos materiais e seu impacto ambiental.

Dentre as tecnologias e possibilidades fruto destas alterações de paradigma estão exemplos como o de membranas estruturais auto-portantes de madeira, encaixes que dispensam parafusos ou pregos, pavilhões feitos através da elasticidade dos materiais e membranas capazes de se adaptar às condições microclimáticas - como a umidade do ar ou o calor.

Muitos destes casos vem diretamente do Institute for Computational Design and Construction da Universidade de Stuttgart, que nos ultimos anos tem contribuido ao tema, com auxilio do Professor Achim Menges, através de pavilhões e pesquisas que se valem dos mais diversos tópicos que rodeiam a tecnologia de materiais, o design biomimético e o design computacional.

O pavilhão ICD/ITKE de 2015-16, por exemplo, partiu da análise morfológica de bolachas-do-mar - animais próximos às estrelas-do-mar e ouriços - para o desenvolvimento de um processo de fabricação que auxiliou na produção de peças de madeira compensada laminada dobradas elasticamente [IMG-23]. Produzidas robóticamente e unidas por costuras, os segmentos compuseram o pavilhão formando uma estrutura super-leve e possibilitando uma montagem e um desmonte ágil e eficiente. [14]

Outro pavilhão que destacou-se em 2019 foi o Steampunk Pavillion, construído a partir de madeira de lei dobrada a vapor e montando através de ferramentas manuais primitivas - como martelos e réguas. Através da precisão de lentes de realidade aumentada, a instalação foi construída a tempo para a 5ª edição da Bienal de Arquitetura de Tallinn (TAB 2019) na Estônia, e permanecerá em vigor até a próxima edição da Bienal em 2021 [IMG-20]. [15]


Conclusão

Mais do que novos softwares ou algorítmos, o Design Computacional é uma forma de abordagem que surgiu para alavancar a forma como se projeta. Promovido pela capacidade de processamento de dados da máquina, este provavelmente será um período marcante na história do Design.

Enquanto as primeiras Revoluções Industriais permitiram revolucionar a produção em nível de escala, até então estas haviam deixado para trás o cuidado e a qualidade com o design dos produtos. Com a chegada do Design Computacional, esta qualidade perdida será resgatada através de projetos que mantém uma produção em escala sem perder a capacidade de adaptação caso-a-caso.

Portanto, mais do que uma questão quantitativa, o design computacional representa uma completa alteração em todo o campo metodológico e construtivo. Assim, esta será uma disciplina que substituirá os métodos de design clássico a fim de introduzir novas perspectivas que somente poderiam ser obtidas através da inserção do computador, em conjunto com as redes de comunicação e dos novos métodos de fabricação digital, nos processos de pesquisa, concepção, experimentação e produção.


Interessado em se tornar um Designer Computacional? Em um post futuro pretendo elencar também as principais ferramentas utilizadas por quem deseja aprender mais sobre a prática do Design Computacional e como incorporar pouco a pouco esta metodologia em seu processo de trabalho. Fique atento nas redes sociais do Membrana Paramétrica caso queira saber mais.

Bibliografia

  1. Jeffries, P. 2016, 'What is Computational Design?', Blog Article, Ramboll, visto em 12 de Março de 2020, < https://blog.ramboll.com/rcd/articles/what-is-computational-design.html > ↩︎
  2. European Commission n.d., 'Worldwide urban population growth', Website Article, visto em 12 de Março de 2020, < https://ec.europa.eu/knowledge4policy/foresight/topic/continuing-urbanisation/worldwide-urban-population-growth_en > ↩︎
  3. Franco, J.T. 2019, 'Can a Machine Perform the Work of an Architect? A Chat with Jesper Wallgren, Founder of Finch 3D', Website Article, ArchDaily, Visto em 12 de Março < https://www.archdaily.com/929300/can-a-machine-perform-the-work-of-an-architect-a-chat-with-jesper-wallgren-founder-at-finch-3d >↩︎
  4. Chaillou, S. 2019, 'ArchiGAN: a Generative Stack for Apartment Building Design', Website Article, NVidia Developer Blog, Visto em 12 de Março < https://devblogs.nvidia.com/archigan-generative-stack-apartment-building-design/ >↩︎
  5. Gerfen, K. 2018, 'Autodesk MaRS Office', Website Article, Architect Magazine, Visto em 12 de Março < https://www.architectmagazine.com/project-gallery/autodesk-mars-office_o >↩︎
  6. Bien-Khan, J. 2017, 'If an AI Doesn't Take Your Job, It Will Design Your Office', Website Article, Wired Magazine, Visto em 12 de Março < https://www.wired.com/2017/04/autodesk-project-discover/ >↩︎
  7. Patel, S. V. 2015, 'Designers need Augmented Intelligence not Black Box AI', Website Article, Towards Data Science, Visto em 12 de Março < https://towardsdatascience.com/augmented-intelligence-for-sustainable-design-and-architecture-2f96a2fac95e >↩︎
  8. Buday, R. 2019, 'What We Don't Get About Climate Change', Website Article, ArchDaily, Visto em 12 de Março < https://www.archdaily.com/924330/what-we-dont-get-about-climate-change >↩︎
  9. Santamouris, M. 2016, citado em Naboni, E., Havinga, L. 2019, 'Regenerative Design in Digital Practice', Book Article, p. 185. < https://www.archdaily.com/924330/what-we-dont-get-about-climate-change >↩︎
  10. Pintos, P. 2019, 'Freebooter Housing / GG-loop', Website Article, ArchDaily, Visto em 12 de Março < https://www.archdaily.com/915782/freebooter-housing-gg-loop >↩︎
  11. Jackson Clements Burrows Architects 2019, 'Gillies Hall - Monash University', Website Article, JCBA, Visto em 12 de Março < http://www.jcba.com.au/projects/monash-peninsula-student-accommodation-452 >↩︎
  12. Menges, A. 2012 'Material Resourcefulness: Activating Material Information in Computational Design', Magazine Article, Architectural Design. 82. 10.1002/ad.1377, p. 36-43. ↩︎
  13. Menges, A. 2012 'Material Computation: Higher Integration in Morphogenetic Design', Magazine Article, Architectural Design. 82. 10.1002/ad.1374, p. 14-21. ↩︎
  14. ArchDaily, 2017 'Pavilhão de Pesquisa ICD-ITKE 2015-16 / ICD-ITKE Universidade de Stuttgart', Website Article, ArchDaily, Visto em 12 de Março de 2020 ↩︎
  15. Block, I. 2019 'Digital models and augmented reality used to build twisting pavilion in Tallinn', Website Article, Dezeen, Visto em 12 de Março de 2020 < https://www.dezeen.com/2019/10/16/steampunk-pavilion-fologram-tallinn-architecture-biennial/ > ↩︎

Imagens

  1. KPF n.d., The Smart(er) City, visto em 05 de Março de 2020, < https://ui.kpf.com/smarter-city >.
  2. Greater Chattanooga 2016, "The Leap - Branch Technology" - 3D printing meets architecture, Video, YouTube, visto em 05 de Março de 2020, < https://www.youtube.com/watch?v=nrdQrpiLJMQ >.
  3. tomaszjaniak 2014, Shadow Analysis – effective and simple tool analyzing daylight conditions, weblog, tomaszjaniak, visto em 05 de Mar;o de 2020, .
  4. Banque Cantonale de Genève 2017, Computational Integration in Architecture- Rethinking Design, Video, YouTube, visto em 05 de Março de 2020, < https://www.youtube.com/watch?v=7Hcn7VgzdPc >.
  5. Karamba 3D n.d., Smooth Cross Section Heights From Moments, Karamba3D, visto em 05 de Março de 2020, < https://www.karamba3d.com/examples/smooth-cross-section-heights-from-moments/ >.
  6. Xu, Y., Belyi, A., Santi, P., & Ratti, C. 2019, Singapore Calling: Social and Physical Segregation in Singapore, visto em 05 de Março de 2020, < http://senseable.mit.edu/singapore-calling/ >.
  7. Finch3D, website homepage, visto em 06 de Março de 2020, < https://finch3d.com/ >.
  8. Chaillou, S. 2019, ArchiGAN: a Generative Stack for Apartment Building Design, Nvidia Developer, visto em 06 de Março de 2020 < https://devblogs.nvidia.com/archigan-generative-stack-apartment-building-design/ >.
  9. Chaillou, S. 2019, ArchiGAN: a Generative Stack for Apartment Building Design, Nvidia Developer, visto em 06 de Março de 2020 < https://devblogs.nvidia.com/archigan-generative-stack-apartment-building-design/ >.
  10. Bien-Khan, K. 2017, If an AI Doesn't Take Your Job, It Will Design Your Office, Wired Magazine, Visto em 06 de Março de 2020 < https://www.wired.com/2017/04/autodesk-project-discover/ >.
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Henrique Andrade

Arquiteto e Urbanista de formação, designer e programador por insistência. Acredito que a tecnologia tem o poder de revolucionar a sociedade para o bem e para o mal, a depender de como a utilizamos.

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